Assinatura RSS

Sob a neve, a madeira.

O vento passava em atrito com a pele de Erick. Seus lábios estavam frios e suas pernas tremendo. Não era por causa do aroma de inverno que se espalhava pelo parque de Manhattan com suas folhas beges e grama visivelmente coberta pela geada daquela madrugada. Ele não estava sozinho.

Erick costumava ir ao parque todos os domingos pela manhã para aproveitar a vista magnífica que a neve deixava-se emoldurar na grama e nas árvores do lugar mais movimentado da cidade, apesar de que, aos domingos, era um deserto branco, principalmente nas manhãs geladas de Novembro. Era possível ver um tolo homem andando vagarosamente pelas trilhas enquanto o vento se tornava navalha ao passar pelo rosto do Supervisor de Ações Globais, senhor Buntton. Ninguém menos que Erick.

O que ela faz aqui? Não a via há mais de 4 anos, sem notícias, cartas ou despedidas. Seus Lábios vermelhos, olhos negros, pele clara e com seu pequeno cachecol roxo de sempre, junto ao colar de prata que a dera em seu último desencontro numa pequena estrada na planície de Louisiana. Estava lá, sentada num banco de madeira deixando-se atingir pelos poucos flocos de neve que flutuavam pelas árvores.

Seu rosto refletia no escuro lago central, agora congelado, mas muito frequentado por pássaros nos tempos de verão, não queria vê-la diretamente. O medo consumia sua visão fazendo sua pressão cair só de olhar aquela mulher. Distraída com fones de ouvido, parecia não notar o estranho homem parado ao lado do poste negro entre as árvores de folhas laranjas, quase despencando. Bastava apenas alguns passos para chegar até ela.

– Sente-se, disse Roxanne ao mover seus lábios que poderiam ser vistos de longe com o batom vermelho-cereja que usava.

O silêncio consumiu o parque, por instantes podia-se ouvir a o som dos flocos de neve atritando contra as árvores de carvalho e a estátua de mármore em memória de Joseph Wiseman, reconhecido pela perspicácia e agilidade durante suas atuações e interpretações como primeiro vilão de James Bond.

– O que faz aqui?

– Queria revê-lo.

– Conseguiu o que queria, pulsava Erick enquanto começava a andar novamente por onde viera.

– Vai embora de novo?

O ar pesava, a neve começava a ficar densa, o perfume suave e duvidoso se espalhava parecendo esquivar de cada ponto branco que pairava no ar daquele instante, sentia o odor e o gosto da fragrância indubitavelmente cativante e aspirante quando disse em um breve sussurro:

– Nunca deixei você, ao contrário do que fez.

– Sinto medo de te machucar, dizia Roxanne quando começava a procurar algo dentro da bolsa.

– Machucar? Meu mártir mais profundo foram seus atos, o silêncio, a dúvida que me consumia dos pés a cabeça, que me tirava sono e lágrimas. Reticências após reticências instruídas por, talvez, eu mesmo, mas devido ao que me faz. O que quer que eu pense de você vindo aqui?

– Apenas senti saudade – desenrolava o cachecol colorido do pescoço – Não quero que se zangue, gosto de ter você aqui quando eu precisar, gosto de ver você sempre ao meu lado, gosto de saber tudo que faria por mim, inegavelmente.

– Isso me torna um escravo: cego, surdo e mudo para todos além de você. Chances não existem mais, por que ainda persistir?

– Eu não te amo.

– Melhor do que o silêncio.

– Minhas palavras não têm mais poder sobre você.

– Demorei para perceber onde errava, não?

– Talvez ainda não tenha percebido.

Erick mexeu seu lábio, pareceu dar um pequeno e discreto sorriso.

– Olhe para frente, o passado é apenas experiência, felizes ou tristes, boas ou ruins, quentes ou frias. Apenas experiência; nostalgia não lhe trás nada de volta, tudo é ilusão.

Parou por um minuto para tirar os fones do ouvido, retocou a maquiagem e levantou-se em direção a Erick. Encerrou os passos dotados de força a sua frente e fitou-o como se facas fossem ser lançadas de seus olhos para atravessar transversalmente a cabeça do homem apoiado ao poste.

– Não quero mais ouvir uma palavra sobre isto, entendeu bem? Bradava com raiva Roxanne apontando o dedo para o rosto do Sr. Buntton.

– Não me imponha limites, já disse. Eu não sou mais seu escravo, por mais passivo que tenha sido, se quiser alguma coisa, saiba que não terá mais um fantoche diretamente ou indiretamente manipulado.

O ar perplexo e comparativo da mulher ponderada parada no meio do parque tomava o lugar, era possível sentir pressão nos ouvidos de tantos pensamentos em conflito dentro de sua racional, porém confusa, cabeça. Não era possível entender, ainda não é, mas agora era possível aceitar; ela percebeu…

– Não voltarei.

Disse a cereja que tomando a direção oposta do poste, escorregava em seus passos com determinação, enquanto o talvez tolo homem começava a caminhar tranquilamente pela trilha entre as árvores agora cobertas de neve para que as páginas do livro fossem fechadas e o mesmo guardado na estante, esperando para ser lido mais uma vez numa gelada manhã de domingo, sábado, ou quarta-feira.

 

– Vã tentativa de escrever um conto requisitado por uma “leitora”.

Livros de Alice, I

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: