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Uma noite de esmeralda.

A noite era de lua cheia. Os dedos delicados percorriam o frágil e pouco expressivo rosto do homem fulvo, sentia a mulher de cabelos curtos não desviar-lhe os seus olhos claros em instante algum. As unhas brancas dançavam por suas sobrancelhas, perambulavam por trás da orelha e até o escovavam o cabelo. Ele queria olhar para ela, mas os olhos da moça ainda o encaravam.

No brilho daqueles olhos o passado se refletia: A jovem não poderia esquecer, seus olhos nunca deixariam aqueles momentos se perderem da memória. Surgia no espelho da lágrima uma jovem conversando com outras meninas, todas sentadas num banco velho e marrom perto ao jardim de uma mansão antiga, como já era costume das três garotas.

Grandes muros e portões sombrios sempre deslumbravam Ísis quando passava em frente à mansão, era a garota de cabelos lisos e negros. Seus olhos de esmeralda ficavam mais verdes com o brilho do sol refletindo as cores do jardim pouco colorido em seu rosto. Violetas, rosas, margaridas e um beija-flor azul que a encarava pairando na paisagem, como se com muita gratidão retribuísse o olhar da moça também apreciando seus olhos.

Era engraçado vê-la ali, parada, muito tempo depois de suas amigas já terem partido, apenas para apreciar as lindas flores exóticas e com aromas únicos do grande jardim. Costume meu observá-la pelos dias que ficava por lá até mais tarde. Sempre com suas pulseiras e colares dourados, contraste perfeito com os olhos verdes e o cabelo escuro… Como se tivesse nascido para chamar atenção.

Sempre me via sentado no último galho de árvore a observando. As esmeraldas me encaravam e desviavam-se logo em seguida. E depois, sempre um sorriso frágil. Conversávamos por olhares, sorrisos e bochechas vermelhas durante horas. Ela sentada, e eu no galho de árvore, até que meu galho se tornou o banco marrom.

Uma vez disse à ela como seria estranho se não me apaixonasse por tão formosa jovem. Passeávamos, conversávamos, tomávamos sorvetes e dançávamos nos campos livres da entrada de minha mansão. O fascínio naqueles olhos claros era encantador, seus dedos tremiam quando eu me aproximava, assim como meus joelhos também o faziam ao lado dela. Seus brincos de ouro, hoje, são de pedras raras.

Sentada na cama com apenas a luz do luar transformando seus corpos em silhuetas, Ísis ainda olhava com as esmeraldas encharcadas para o homem que avistava o horizonte sem fim pela janela. Seu sangue escorria pelas mãos da formosura, manchando o carpete do quarto onde estavam.  Ela queria amar. Foi um erro ter revelado meu segredo tão cedo. Ela não se conteve, sem controle, em desespero, não havia outra saída, o que mais poderia ter feito com este homem que talvez a amasse? Devia, com toda certeza, mas não podia confiar nele. As esmeraldas queriam amar, mas não podiam ser amadas primeiro.

O homem sentia a dor, mas preferia observar as montanhas ao fundo da paisagem ao ver seu próprio sangue espalhado pelo cômodo mais aconchegante do casarão. Lembro-me de como estranho seria se eu não me apaixonasse por você. E, na verdade, a vida escolheu ser estranha. O homem sentia as unhas brancas dançarem por suas sobrancelhas, perambularem por trás da orelha e até escovarem seu cabelo. Ele queria olhar para ela. E ele não queria.

E também não podia. Eu estava morto.

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