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Arquivo do mês: outubro 2011

N.o.i.t.e.

Ouça.


E esqueça.

Do Abracadabra à fantasia da Noite. Dos vultos serpenteando palavras poéticas até os novos e sinceros passos de dança duma garotinha vestindo rosa, um arquinho e pouca maquiagem. “A música! Sim, a música, estão ouvindo?” De onde vem o som delicado da orquestra francesa que ecoa pelos cantos da sala, pelo palco, pelo público? Poucos sabiam, mas a linda música era o tema incrível de Amelie Poulain! Não poderia existir música mais perfeita para aquela apresentação!

Apesar de tudo, tive boa companhia para o espetáculo. Assistindo da 3ª fileira era possível ver os robôs dançando e os brinquedos rastejando enquanto ouvia-se a risada de um homem corrompido pelo dinheiro. O que adotamos como valores? É o que adotam para nós? Por que não valorizar o que merece? Por que não valorizar quem merece? Por que não tent…

Costumo dizer que o ser humano funciona como as duas faces de uma moeda: Uma é iluminada como o dia, lhe diz que você é capaz de tudo, não há limites para ser você mesmo! Em contrapartida, há uma muito sombria como a noite, lhe diz que de nada você é capaz, lhe esconde no sereno frio e lhe joga em um mundo de escuridão. Pena dos que se deixam levar pela segunda face, ignorantes de possibilidades, assim jogando-se de cabeça em mentiras.

Talvez… Não! Quem sabe dizer se não é melhor esconder-se no sereno? Sei que não. Basta, para mim, saber que uma coisa é certa: Nunca Ouça Inteiramente o Teu Eu! Deixo de lado o lirismo dos bêbados para a fortuna arcadiana nos levar para fora dessa dura realidade.

Espero, eu, em alguma Noite.

Parabéns aos atores do espetáculo, vocês foram demais!

Cartas para Capitu

Espere um momento. Para que possa lhe contar alguns recentes acontecimentos, preciso deitar em minha rede de tecido interiorano tão confortável como uma poltrona estufada de couro novo e de boa qualidade! Mas detesto poltronas. Prefiro o balançar do gancho na parede, o sol esquentando meu rosto e a sadia brisa da noite me fazendo companhia nessa carta.

Começo com algumas penadas sobre a rua de Matacavalos. Ou poderia chamá-la de Alameda da Glória? Quisera eu, se pudesse! Alameda da Glória é um bom nome de lugar para uma grande história se passar. Apesar de gostar, também, da Rua Shipping. Infelizmente, Matacavalos não é como minha idealizada Alameda da Glória, é simples e desprovida de gente interessante, são as diversas esquinas numa mesma rua que a tornam um caminho interessante. Só a rua, pois sua gente não é muito conhecida.

Perdão aos Matacavalenses! Acho apenas que uma esquina salva todo seu povo. Jogar bola, brincar de pega-pega ou esconde-esconde por entre as vielas tranquilas dessa grande rua parece-me espetacular. Diria, até mesmo, surreal! Com todos seus varais imaginários atravessando os becos, tênis pendurados, paredes descascadas e janelas mal pintadas (até que são bonitas), seus obstáculos fazem da brincadeira ainda mais divertida… Surreal! Surreal! Ou talvez somente cotidiano para os que lá vivem.

Não sei ao certo, mas me lembro de um portão de tom escuro a frente da esquina que citei. Alguns minutos foram perdidos por ali mas nada de que me arrependesse; sinceramente, penso até em gastar mais milhares de minutos por lá! Mas seria insensatez e desperdício de minutos. Um, dois, três, cinco, dez, vinte e cinco, trinta, quarenta e dois, cinquenta e oito, um milhão. Não me importaria em passar mais tempo em qualquer portão se a espera valesse mesmo a pena.

Desculpe-me! Sem querer me perdi durante raciocínio. Não é de todo fácil colocar tantas sensações e pensamentos no papel. E você sabe como é isso. Sabe que uma arquitetura vista não pode ser descrita em escrita. Sabe que o reflexo de uma joia não pode ser exemplificado por tinta no papel. Sabe que a sensação de aconchego que tens comigo não é a mesma que você conseguiria dizer pelas linhas de um caderno de mão ao tentar descrevê-la, se tentasse.

Mas se não tentasse, eu ficaria decepcionado. Acho que é o suficiente para convencer-lhe de que nessa quarta carta não há mais nada além de puríssima verdade. José Dias gostaria desse superlativo. Carta número quatro:

Paris no verão…

“Não importa, é lindo andar na chuva!”

É engraçado


Rosto corado e íris escuras, cabelos longos… mas nem tanto. Um jeitinho estranho e sincero que me abraça e agarra meu braço dando risada das brincadeiras mais relevantes que acontecem. Sempre, ou quase sempre, com seu tênis All Star colorido e encardido. Sem problema, All Star bom é All Star sujo! Mas prefiro seu pé descalço. Como é engraçado o jeito que seu pé deixa marca na terra úmida, embora sinto-me triste em dizer-lhe que já pisaram nessa terra muitas vezes antes de você.

As marcas deixadas na terra úmida são perenes. Marcas de verdade. Marcas sinceras. Marcas de vários tipos. É óbvio que tens vários calçados diferentes para que com cada um deles faça mais diferentes marcas de todos os tipos na minha terra úmida; retirando a grama, as formigas e até as flores que ali ousavam crescer. E então a terra seca, sem vida, sem nada.

Assim o céu escurece, a luz divina se apaga e tudo fica cinza, cinza triste. Fica cinza sem vontade, cinza cinza! As nuvens escondem a maravilhosa cor anil do céu do meio-dia. Então, Chuva! Que beleza, chuva! Adeus terra seca, adeus terra sem vida! Vejo as marcas iluminadas pelo cinza se enchendo de água, formando poças e mais poças onde haviam estas tão queridas marcas! Não as vejo mais, tanta água por cima da terra, da rua, do azulejo!

Então você puxa meu braço, tira meus fones do ouvido e os segura com olhos brilhando. Achei que fosse só efeito das gotas da chuva, mas seus olhos estavam mesmo brilhando. Só conseguia ver um dos olhos, a franja encobria o outro, mas não foi como se a sensação fosse cortada pela metade; pelo contrário, só misturou mistério ao brilho dos olhos e ao do sorriso. Ah, Olhares e Sorrisos! Como pode haver coisa melhor que os dois juntos em sua frente? Um lhe encarando e o outro lhe refletindo.

Quando percebi já estava dentre as árvores do parque. Eu tirei seu tênis, e você o meu óculos. O tempo parou, seus pés pulavam nas poças d’água, fazendo-a espirrar com alegria e respingar toda em minha camiseta polo, o meu vermelho forte virava vinho enquanto o branco já estava praticamente transparente, assim como sua blusa. Seu sutiã estava aparecendo, mas você não ligava. Eu não ligava.

Não havia mais marcas.

De repente, não mais que de repente.

Soneto de Separação
Vinícius de Morais

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Minha amora!

Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras,
amoras dos dois lados, embora mais à direita,
uma álea de amoras, descendo em curvas fechadas, e um mar
algures, lá ao longe, arfando. Amoras
tão grandes como a cabeça do meu polegar, e mudas como olhos
negros nas sebes, repletas
de um suco azul-vermelho. Este desperdiça-se nos meus dedos.
Não pedira tal comunhão de sangue; devem amar-me.
Comprimem-se numa garrafa de leite, de encontro aos seus lados.

Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração.
Eu sou, eu sou, eu sou.

PLATH, Sylvia. in A Redoma de Vidro
and Pela Água.

Cartas para Capitu

Valha-me a tristeza de todos os dias quando não se tem o que mais deseja. Pois, então, faço dessa tristeza a coragem que move tamanha determinação, veículo único para degustar de minha tão querida glória! Ah, como o destino é bondoso com um reles mortal de alma perfurada como eu.

Como as noites são quentes! Antes fosse o tempo úmido da neblina serrana, o mesmo que me traz inspiração para essa carta… É mentira. escrevo hoje pela vista do livro de capa verde, o mesmo que nunca prestei-me a ler e que também nunca o farei. Até mesmo porque ler um livro sem recomendações não é algo muito gratificante, onde está a essência de ter ideias sobre uma divertida obra sem ter com quem debatê-las depois?

Mau imaginar que tenhas levado o livreto para longe consigo, suspeitar que ele está enterrado, guardado em seu esquecimento não me anima, de fato. E, mais uma vez, é mentira. Deixei nas mãos da fortuna arcadiana a resposta para minha pergunta, mas a solução sempre esteve perto de mim… Por que sei que você o vê todos os dias.

Um belo lembrete nesta brevíssima terceira carta:

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