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Arquivo do mês: fevereiro 2012

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (2011)

Não tenho palavras para descrever isso.

Coroa

Uma volta…

Eu queria saber o que se passava na cabeça de cada uma naquele instante, o que aqueles olhares trocavam, por que vocês não mostram logo o que querem de uma vez? Ah, meu chá está esfriando, melhor aproveitar enquanto o Croissant não gela também.

Duas voltas…

Certa vez me disseram que quando você uma decisão difícil a ser feita, jogue uma moeda. Mas por que?

Três voltas…

A menina de bege parou, e começou a voltar em direção à mesa, ainda não muito distante de nossos assentos de madeira, sentou-se ao meu lado e sorriu inocentemente.

Quatro voltas.

“Subitamente, enquanto a moeda está no ar, você sabe o que você espera como resposta.”

A quarta volta foi a última que vi, depois disso, só encarava o rosto delicado da menina com outro grande rosto desenhado nas costas de sua camiseta. A resposta da moeda não importava mais, percebi que apesar das dúvidas do princípio, dessa vez, tinha escolhido não o fácil, mas o certo.

A outra garota tinha saído há alguns instantes pela porta da frente do nosso restaurante.

– Ela esqueceu o suco de maracujá, disse a voz doce ao meu lado.

– Não se preocupe, qualquer hora ela volta para buscá-lo.

Com certa dúvida no olhar, replicou:

– Eu acho que não…

– Hahaha, é, eu também acho que não.

Conversamos mais um pouco e terminamos nosso desejum. Segurei a sua mão e a levantei de seu assento, recolhi a sujeira do croissant crocante – muito gostoso, por sinal – e o pouco que restou do pote de morangos. De mãos dadas, íamos saindo de lá, mas lembrei que tinha que pegar aquela minha moedinha da sorte.

Voltei à nossa mesa e busquei-a pelo chão.
Sorri. Ou espantei, não sei dizer.

A moeda estava de pé, ainda assim esperando ser decidida. Será que até ela teria dificuldade em responder minha dúvida?

Não tem problema! Eu já tinha minha resposta. Todo aquele mar de questionamentos se extinguiu num último peteleco naquela moeda:

Cara.

Cara

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O café fervia, dava pra ouvir perfeitamente o barulho da cafeteira rugindo  aos fundos do balcão. O pão de forma habitava a mesa há quase uma hora, os frios e o pote de meia-margarina e meia-manteiga faziam companhia para o pobre pão, tão triste, tão sozinho, esperando que alguém o provasse fazendo cara de satisfeito… Mas ninguém queria pão. Todos apenas se encaravam.

A mesa era de madeira nova, lisa, sem verniz, ou quase sem verniz, uma estranha porém boa textura para uma mesa de cafeteria, diga-se de passagem. Mas a cadeira era desconfortável. Na verdade, acho que meu lugar era desconfortável; sendo alvo de dois olhares fulminantes que ora atacavam-se, ora indagavam-se. O fazer se ninguém diz nada por aqui? Só se encaram, franzem as testas, mordem os labi…

– O que deseja senhor?

– Ah, um chá mate bem quente e com extra açúcar, para acompanhar, um croissant de massa folhada com presunto e queijo cheddar.

– Muito bem, e as senhoritas vão querer algo?

Rezava a lenda que um suco de maracujá iria alegrar a senhorita da esquerda, então esse foi meu pedido: nada além de um suco de maracujá,  tamanho médio, sem sementes e um bom pote de morangos com creme de leite para talvez distrair um pouco a garota.

– Mas eu não gosto de suco de maracujá desse lugar! – disse ela.

– Pena, traga assim mesmo, é bom para acalmar os nervos e espairecer a cabeça.

– Anotado, senhor, trarei assim que os morangos estiverem prontos.

– Espere! Minha acompanhante também vai querer morangos com creme de leite, também traga-me uma coca-cola. como sempre.

Um beijinho barulhento – rápido – e pouco discreto na bochecha me surgiu assim que terminei a frase, logo após, os olhos voltaram a se encarar. Eu já estava gostando da situação, então finalmente a menina da direita suspirou discretamente, encostou as costas no estofado e, ao mesmo tempo, a outra garota deixou escapar um sorriso pelo canto direito da boca. Os cabelos da primeira passaram pelo meu rosto após a ajeitada na franja que tinha feito, longos fios de cabelo que a segunda nunca teve.

Assim que a garçonete retornou e deixou os dois potes de vidro com dezenas de morangos picados melados entre doce leite, elas começaram a conversar. O suco de maracujá chegou junto, uma delas agradeceu a garçonete ironicamente olhando para mim, mas eu fingi que não percebi.

Passados minutos intermináveis de pequenas partes de conversas jogadas fora, as duas limparam as bocas com guardanapos de papel e levantaram em direção ao banheiro no mesmo instante. Tudo parecia uma competição para as duas, meu relógio tic-tac-queava como se fosse um cronômetro para as duas. Elas andavam lentamente, fingindo que não queriam entreolhar-se.

Foi então que reparei nas costas de cada uma, na blusa da menina de cabelos curtos e olhos profundos habitava uma espécie de desenho britânico, algo semelhante a um croqui do rosto da rainha da Inglaterra, mas era um desenho incompleto, apenas do nariz até sua coroa cheia de detalhes num fundo verde escuro.

Já a outra vestia uma camiseta bege, ou marfim… ou creme, nunca sei diferenciar essas coisas! Mas era uma cor clara que combinava com seu tom de pele também claro. Era um desenho discreto, sem muitos detalhes, porém muito chamativo – como será que não vi isso antes? – era a face de uma mulher nova, nem adolescente, nem de meia-idade. Apenas uma mulher com cabelos ruivos, com rosto pouco detalhado e olhos claros. Não sei ao certo, mas me lembrava bastante a Kirsten Dunst.

Ainda indeciso como desde o começo daquele dia, deixei o peso da cabeça levar minha testa vagarosamente até a mesa de madeira bonita. Muitas perguntas serpenteavam naquela pobre cabeça, mas num instante todas elas se convergiram em apenas  uma indagação quando meus olhos abriram: a resposta veio pelo chão de madeira clara, diferente da madeira da mesa, fazendo um ruído baixinho até encontrar com meu sapato Mocassim.

Estiquei o braço e peguei o objeto dourado.

Fechei os olhos.

E joguei a moeda.

Tom tinha razão.

23 de Maio era uma Quarta-Feira.

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