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Arquivo da categoria: Crônicas

Coroa

Uma volta…

Eu queria saber o que se passava na cabeça de cada uma naquele instante, o que aqueles olhares trocavam, por que vocês não mostram logo o que querem de uma vez? Ah, meu chá está esfriando, melhor aproveitar enquanto o Croissant não gela também.

Duas voltas…

Certa vez me disseram que quando você uma decisão difícil a ser feita, jogue uma moeda. Mas por que?

Três voltas…

A menina de bege parou, e começou a voltar em direção à mesa, ainda não muito distante de nossos assentos de madeira, sentou-se ao meu lado e sorriu inocentemente.

Quatro voltas.

“Subitamente, enquanto a moeda está no ar, você sabe o que você espera como resposta.”

A quarta volta foi a última que vi, depois disso, só encarava o rosto delicado da menina com outro grande rosto desenhado nas costas de sua camiseta. A resposta da moeda não importava mais, percebi que apesar das dúvidas do princípio, dessa vez, tinha escolhido não o fácil, mas o certo.

A outra garota tinha saído há alguns instantes pela porta da frente do nosso restaurante.

– Ela esqueceu o suco de maracujá, disse a voz doce ao meu lado.

– Não se preocupe, qualquer hora ela volta para buscá-lo.

Com certa dúvida no olhar, replicou:

– Eu acho que não…

– Hahaha, é, eu também acho que não.

Conversamos mais um pouco e terminamos nosso desejum. Segurei a sua mão e a levantei de seu assento, recolhi a sujeira do croissant crocante – muito gostoso, por sinal – e o pouco que restou do pote de morangos. De mãos dadas, íamos saindo de lá, mas lembrei que tinha que pegar aquela minha moedinha da sorte.

Voltei à nossa mesa e busquei-a pelo chão.
Sorri. Ou espantei, não sei dizer.

A moeda estava de pé, ainda assim esperando ser decidida. Será que até ela teria dificuldade em responder minha dúvida?

Não tem problema! Eu já tinha minha resposta. Todo aquele mar de questionamentos se extinguiu num último peteleco naquela moeda:

Cara.

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Cara

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O café fervia, dava pra ouvir perfeitamente o barulho da cafeteira rugindo  aos fundos do balcão. O pão de forma habitava a mesa há quase uma hora, os frios e o pote de meia-margarina e meia-manteiga faziam companhia para o pobre pão, tão triste, tão sozinho, esperando que alguém o provasse fazendo cara de satisfeito… Mas ninguém queria pão. Todos apenas se encaravam.

A mesa era de madeira nova, lisa, sem verniz, ou quase sem verniz, uma estranha porém boa textura para uma mesa de cafeteria, diga-se de passagem. Mas a cadeira era desconfortável. Na verdade, acho que meu lugar era desconfortável; sendo alvo de dois olhares fulminantes que ora atacavam-se, ora indagavam-se. O fazer se ninguém diz nada por aqui? Só se encaram, franzem as testas, mordem os labi…

– O que deseja senhor?

– Ah, um chá mate bem quente e com extra açúcar, para acompanhar, um croissant de massa folhada com presunto e queijo cheddar.

– Muito bem, e as senhoritas vão querer algo?

Rezava a lenda que um suco de maracujá iria alegrar a senhorita da esquerda, então esse foi meu pedido: nada além de um suco de maracujá,  tamanho médio, sem sementes e um bom pote de morangos com creme de leite para talvez distrair um pouco a garota.

– Mas eu não gosto de suco de maracujá desse lugar! – disse ela.

– Pena, traga assim mesmo, é bom para acalmar os nervos e espairecer a cabeça.

– Anotado, senhor, trarei assim que os morangos estiverem prontos.

– Espere! Minha acompanhante também vai querer morangos com creme de leite, também traga-me uma coca-cola. como sempre.

Um beijinho barulhento – rápido – e pouco discreto na bochecha me surgiu assim que terminei a frase, logo após, os olhos voltaram a se encarar. Eu já estava gostando da situação, então finalmente a menina da direita suspirou discretamente, encostou as costas no estofado e, ao mesmo tempo, a outra garota deixou escapar um sorriso pelo canto direito da boca. Os cabelos da primeira passaram pelo meu rosto após a ajeitada na franja que tinha feito, longos fios de cabelo que a segunda nunca teve.

Assim que a garçonete retornou e deixou os dois potes de vidro com dezenas de morangos picados melados entre doce leite, elas começaram a conversar. O suco de maracujá chegou junto, uma delas agradeceu a garçonete ironicamente olhando para mim, mas eu fingi que não percebi.

Passados minutos intermináveis de pequenas partes de conversas jogadas fora, as duas limparam as bocas com guardanapos de papel e levantaram em direção ao banheiro no mesmo instante. Tudo parecia uma competição para as duas, meu relógio tic-tac-queava como se fosse um cronômetro para as duas. Elas andavam lentamente, fingindo que não queriam entreolhar-se.

Foi então que reparei nas costas de cada uma, na blusa da menina de cabelos curtos e olhos profundos habitava uma espécie de desenho britânico, algo semelhante a um croqui do rosto da rainha da Inglaterra, mas era um desenho incompleto, apenas do nariz até sua coroa cheia de detalhes num fundo verde escuro.

Já a outra vestia uma camiseta bege, ou marfim… ou creme, nunca sei diferenciar essas coisas! Mas era uma cor clara que combinava com seu tom de pele também claro. Era um desenho discreto, sem muitos detalhes, porém muito chamativo – como será que não vi isso antes? – era a face de uma mulher nova, nem adolescente, nem de meia-idade. Apenas uma mulher com cabelos ruivos, com rosto pouco detalhado e olhos claros. Não sei ao certo, mas me lembrava bastante a Kirsten Dunst.

Ainda indeciso como desde o começo daquele dia, deixei o peso da cabeça levar minha testa vagarosamente até a mesa de madeira bonita. Muitas perguntas serpenteavam naquela pobre cabeça, mas num instante todas elas se convergiram em apenas  uma indagação quando meus olhos abriram: a resposta veio pelo chão de madeira clara, diferente da madeira da mesa, fazendo um ruído baixinho até encontrar com meu sapato Mocassim.

Estiquei o braço e peguei o objeto dourado.

Fechei os olhos.

E joguei a moeda.

Minha querida, essa é para você.

Entre. Sinta-se em casa, puxe uma cadeira e descanse os pés. Pode empurrar essas violetas para o canto, estão aí só como enfeites, além do mais, prefiro as rosas assim como você. Aceita um cafezinho? Hahaha, eu sei! Só estava brincando; sei que você não gosta de café, por isso preparei aqueles morangos de que tanto gosta! E espere só um pouquinho pois já peço para lhe trazerem um bom suco natural.

Depois abrimos a garrafa de vinho, se quiser. Mas não acho que seja hora para comemorar qualquer ocasião com um bom tinto, chamei-lhe hoje aqui para mostrar-lhe o quanto lhe resta depois de poucas discussões, de alguns ressentimentos, de todo esse tempo. Esperava que você tomasse a frente e viesse falar o que tem escondido dentro de você, mas você é bem fraca quando se trata de admissões pessoais; acabou me sobrando, como sempre, apenas redigir alguns lembretes.

Tanto gosto como odeio escrever. As palavras me confortam, me trazem alegria por determinados períodos e momentos que me tiram da realidade para me fazer esquecer o quanto costumo pensar sobre meus problemas, sobre nosso mundo e sobre você. Mas as mesmas me fazem acreditar que tudo se resolverá só por escrever, você sabe como é isto, pelo menos sei que me entende.

Ah, ali estão elas! Podem colocá-las aqui na mesa, por favor. Viu só? Não disse que preferia rosas? Dei um jeito de enfeitar melhor essa mesa! Violetas também são lindas, mas só as rosas conseguem ser lindas ao mesmo tempo que podem ferir quando mal manuseadas. Assim como as palavras. E essa, minha querida, essa é para você.

Monólogo das Cinzas

Passou mais um ano, e ainda lembro de você perto da gente. Nós quatro, jogando cartas e bebendo cerveja na calçada como adolescentes idiotas. Quem nos olhava caídos ali dando risada e falando besteira não tinha ideia de como eram gostosos aqueles momentos, tardes inteiras atadas as madrugadas! Ninguém mais sabia como era importante ter você conosco… Comigo.

É bom sentar aqui e te imaginar no tablado, discursando na atenção de todos com os olhos brilhando ao som das palavras que ecoavam dentro do auditório. As paredes tremiam junto com o coração de cada pessoa sentada naquele gigantesco salão.

Hoje, as paredes que vibravam ao decorrer de suas frases estão velhas, descascadas, manchadas. Sem vida.
Sem uma doce voz de mesura para respaldar os quatro cantos da grande sala, assim como a sua fazia durante as palestras noturnas de aprendizado. E nós saíamos depois.

Saíamos nós quatro para encher a cara e jogar cartas apostando cervejas, drinks e refrigerante; e quando o dinheiro acabava, era a o medo de passar vergonha que entrava como aposta. Tantas tardes, tantas madrugadas! Como sinto falta de sua saia verde e desbotada caminhando ao lado do meu jeans lavado e com rasgo no joelho, rodeando bancos de praça até acharmos um que era do nosso gosto. Nosso banco de todas as noites.

Agora, somos três sentados na sala, com um copo de vinho mais dois de whisky, olhando a lareira que deixa as cinzas em montes para recolhermos assim como fazemos com nossas lembranças. Porém, nossos corações não são como aquelas paredes velhas do auditório, as memórias não se descascam ou ficam velhas e morrem, a melhor imagem de você estará sempre aqui. Perto da gente.

Pertinho, assim.

Essa analogia é uma breve homenagem a alguém muito forte, um guerreiro perante a realidade que, no entanto, não pode resistir aos ferimentos deixados pela vida. Aproveite sempre o momento de inspiração, e descanse em paz.
E, pra variar, temos um novo dia de neblina

Uma noite de esmeralda.

A noite era de lua cheia. Os dedos delicados percorriam o frágil e pouco expressivo rosto do homem fulvo, sentia a mulher de cabelos curtos não desviar-lhe os seus olhos claros em instante algum. As unhas brancas dançavam por suas sobrancelhas, perambulavam por trás da orelha e até o escovavam o cabelo. Ele queria olhar para ela, mas os olhos da moça ainda o encaravam.

No brilho daqueles olhos o passado se refletia: A jovem não poderia esquecer, seus olhos nunca deixariam aqueles momentos se perderem da memória. Surgia no espelho da lágrima uma jovem conversando com outras meninas, todas sentadas num banco velho e marrom perto ao jardim de uma mansão antiga, como já era costume das três garotas.

Grandes muros e portões sombrios sempre deslumbravam Ísis quando passava em frente à mansão, era a garota de cabelos lisos e negros. Seus olhos de esmeralda ficavam mais verdes com o brilho do sol refletindo as cores do jardim pouco colorido em seu rosto. Violetas, rosas, margaridas e um beija-flor azul que a encarava pairando na paisagem, como se com muita gratidão retribuísse o olhar da moça também apreciando seus olhos.

Era engraçado vê-la ali, parada, muito tempo depois de suas amigas já terem partido, apenas para apreciar as lindas flores exóticas e com aromas únicos do grande jardim. Costume meu observá-la pelos dias que ficava por lá até mais tarde. Sempre com suas pulseiras e colares dourados, contraste perfeito com os olhos verdes e o cabelo escuro… Como se tivesse nascido para chamar atenção.

Sempre me via sentado no último galho de árvore a observando. As esmeraldas me encaravam e desviavam-se logo em seguida. E depois, sempre um sorriso frágil. Conversávamos por olhares, sorrisos e bochechas vermelhas durante horas. Ela sentada, e eu no galho de árvore, até que meu galho se tornou o banco marrom.

Uma vez disse à ela como seria estranho se não me apaixonasse por tão formosa jovem. Passeávamos, conversávamos, tomávamos sorvetes e dançávamos nos campos livres da entrada de minha mansão. O fascínio naqueles olhos claros era encantador, seus dedos tremiam quando eu me aproximava, assim como meus joelhos também o faziam ao lado dela. Seus brincos de ouro, hoje, são de pedras raras.

Sentada na cama com apenas a luz do luar transformando seus corpos em silhuetas, Ísis ainda olhava com as esmeraldas encharcadas para o homem que avistava o horizonte sem fim pela janela. Seu sangue escorria pelas mãos da formosura, manchando o carpete do quarto onde estavam.  Ela queria amar. Foi um erro ter revelado meu segredo tão cedo. Ela não se conteve, sem controle, em desespero, não havia outra saída, o que mais poderia ter feito com este homem que talvez a amasse? Devia, com toda certeza, mas não podia confiar nele. As esmeraldas queriam amar, mas não podiam ser amadas primeiro.

O homem sentia a dor, mas preferia observar as montanhas ao fundo da paisagem ao ver seu próprio sangue espalhado pelo cômodo mais aconchegante do casarão. Lembro-me de como estranho seria se eu não me apaixonasse por você. E, na verdade, a vida escolheu ser estranha. O homem sentia as unhas brancas dançarem por suas sobrancelhas, perambularem por trás da orelha e até escovarem seu cabelo. Ele queria olhar para ela. E ele não queria.

E também não podia. Eu estava morto.

O sol de vidro

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Finalmente o pacote chegou! Não aguentava mais esperar aquela caixinha embrulhada aparecer na minha porta. Um embrulho pequeno, envolvido em papel pardo e cheio de selos espalhados pela caixa. Califórnia, Texas, Cidade do México, Buenos Aires, Porto Velho, e finalmente São Paulo! Daria para começar uma coleção só com aqueles muitos selos grudados no pequeno pacote.

Na verdade, não era tão pequeno assim; até arriscaria dizer que era um livro em miniatura, ou um relógio esportivo e importado, assim mesmo poderia ser um porta-retrato… Não, acho que não. A caixinha não era tão grande assim. Parecia mais uma caixa de despertador antigo, daquelas quadradas e pouco detalhada. A ansiedade percorria do peito ao ante-braço,  se espalhando pelas pontas de cada dedo, delirante, rasgando com cuidado o papel amarelado.

A caixa não tinha nada. Por fora, é claro. Nada de etiquetas, nada de marca, nem mesmo assinaturas ou qualquer dica do que estava ali dentro. Era só uma caixinha quadrada de papelão branca que, certamente, só fazia a imaginação ir longe tentando prever o que aquele relicário poderia estar escondendo. Coloquei a caixinha na mesa, juntei as cortinas para o sol não atrapalhar e fechei os olhos por alguns instantes. Pediria que vocês fechassem os seus também, mas assim não poderiam continuar lendo o que eu senti naquele momento. Afinal, era um presente de alguém. Alguém de muito perto… mas tão distante.

Ela não foi até a Califórnia para comprar isso. Acho mesmo que nem precisou sair de casa, internet é o que não falta nos computadores de hoje, mesmo assim não nos falamos há meses. Perdido nos pensamentos sobre a garota de cabelos ruivos, abri a caixa lentamente, mal percebendo o que estava fazendo. O tempo me fez esquecer que Anna sabe como surpreender: O pacote escondia uma pirâmide de vidro. Um tipo de prisma piramidal sem inscrição alguma, algo parecido com aqueles prismas de vidro que tem uma imagem dentro dentro dele. Mas eu não conseguia ver nada.

Olhei de todos os lados, por baixo, por cima, da direita pra esquerda e vice-versa. Nada. Só uma pirâmide de vidro sem nada implícito. Mesmo assim, não deixava de ser linda! Subi até meu quarto desarrumado, abri a persiana, e coloquei-a na estante em frente a janela, ao lado do meu relógio que marcava 17:17. As nuvens dissiparam-se mostrando o sol no céu laranja do fim de tarde.

Anna sabe como surpreender as pessoas, principalmente a mim. O sol iluminou o prisma por alguns instantes, o suficiente para conseguir enxergar a frase no reflexo da pequena pirâmide, dizendo, como se fosse num sussurro, apenas o que queria ouvir: “Ainda lembra de mim?”

Divã

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– Agora?
– Sim, agora.
– Não posso deixar para amanhã?
– Não.
– Não dá, não estou preparado.
– Eles estão esperando.
– Mas eles não vão gostar.
– Não importa, você tem que fazer.
– Preciso, mesmo?
– Tem que ser agora.
– Agora?
– Sim, agora.

Por onde começo? Bom.. É… Ah, sim. Há algum tempo venho me perdendo em pensamentos, no começo parecia só falta de atenção, mas hoje vejo como isso é sério. É como se tudo apenas passasse sem ser registrado; uma coisa ou outra fica, como sempre, mas não tudo.

Por que será que isso acontece? Aos poucos tudo vai mudando. Bem lentamente… imperceptível. Pelo menos era, agora mostrou-se preocupante. Sei que algo desenvolveu isso, e enquanto isso existir, não serão capazes de muita coisa.

Quem sabe largar tudo e começar do zero seja resposta? Lugares novos, comidas novas, bebidas novas, pessoas novas. Uma vida diferente, uma vida nova; vai ver até eu me tornaria diferente. Mas, não. Talvez por falta de oportunidade, admito. Como seria ótimo. Acho que estou tendo uma daquelas crises existenciais, estou vendo cabelos caídos no chão.

Acabei saindo do assunto, não é? Repare. Perco-me em meio as frases, não é preocupante? Não pode ser só falta de atenção. De onde vem essa vontade de esconder a cara? Não pode ser algo simples. Tantas palavras, tantos pensamentos, contradições, revoltas, risadas, choros, gritos, malícias, toques, retoques, angústias, prazeres, quedas, ascensões! Sou alguém sem essência.

– Entendo. E como se sente sobre isso?

– É, estou bem.

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